O fim da intimidade
O Show de Truman, BBB e o hábito de viver sob constante vigilância
Inevitavelmente, mudanças de casa mexem nas nossas rotinas. Algumas mudam até a maneira como enxergamos o lugar onde vivemos. Enquanto me acostumo com o novo endereço, tive uma surpresa. E não tem nada a ver com o apartamento, nem com a arquitetura do prédio. O imprevisto veio durante uma conversa informal entre moradores sobre segurança.
Diante do entre e sai de pessoas que ninguém ainda conhece e as muitas adaptações que acompanham uma mudança, uma em particular me chamou atenção. O condomínio possui câmeras apenas na portaria principal e em outros dois acessos às torres, controlados apenas por interfone. Não há monitoramento nos elevadores, corredores ou áreas comuns. Nas últimas semanas, surgiram relatos de pessoas estranhas utilizando a área de lazer e compartilhando aquele espaço com crianças do condomínio. Nesse contexto, alguns moradores passaram a reforçar a ideia de instalação de novas câmeras.
O assunto foi ventilado durante uma reunião informal de moradores. Alguns condôminos levantaram a possibilidade de ampliar o sistema de vigilância. Câmeras nos elevadores, garagem, corredores, nos diferentes pisos. São argumentos bem compreensíveis. Todos querem mais segurança, mais tranquilidade, mais controle sobre o que acontece nas áreas comuns. Mesmo em Portugal, um país considerado um dos mais pacíficos do mundo, mas onde a criminalidade geral e certos crimes violentos têm, na prática, aumentado segundo dados mais recentes.
O mais curioso porém foi perceber que uma outra palavra ficou completamente fora da discussão: Privacidade. Ninguém parecia disposto a levantar essa pauta.
Ao fim do encontro, voltei para casa pensando em como aquela mesma conversa poderia ter acontecido lá no final nos anos 90, quando O Show de Truman estreou nos cinemas.
Naquele momento, a ideia de um homem passar a vida inteira sendo observado parecia um tanto absurda. Truman Burbank morava em uma cidade cenográfica sem saber que era o protagonista de um programa transmitido para o mundo inteiro. Havia inúmeras câmeras escondidas acompanhando sua rotina, enquanto milhões de espectadores transformavam a intimidade dele em entretenimento.
O roteiro não previu smartphones, redes sociais, nem mesmo mesmo inteligência artificial, mas acertou em algo muito mais significativo do que qualquer tecnologia específica. Podemos dizer que acertou no comportamento.
Estamos todos expostos. Queiramos ou não. Atravessamos ruas cobertas por câmeras públicas e privadas. Entramos em edifícios monitorados 24 horas por dia. Utilizamos reconhecimento facial em aeroportos, bancos e serviços digitais. Campainhas inteligentes registram quem passa diante de uma casa. Automóveis gravam o trânsito continuamente. Sem contar que bilhões de pessoas carregam uma câmera no bolso. Ela está sempre pronta para registrar um acidente, uma discussão, uma enchente, um crime, uma abordagem policial, um pedido de casamento ou o simples tropeço de um desconhecido. Em poucos minutos, essas imagens alcançam outras milhões de pessoas. Viralizam. Nunca foi tão fácil observar. Nem ser observado!
Ah sim, tal transformação também passou pela televisão. Quando o Big Brother estreou na Holanda, em 1999, e rapidamente ganhou versões em dezenas de países, a proposta parecia provocativa: acompanhar vinte e quatro horas por dia a vida de pessoas comuns confinadas em uma casa. Com o tempo, a vigilância deixou de ser apenas um recurso narrativo para se tornar entretenimento global. Depois vieram as lives, os influenciadores, os stories e uma cultura que transformou a exposição permanente em parte da rotina.
Ao mesmo tempo em que aceitamos mostrar cada vez mais de nossa vida, aumentaram as notícias sobre o lado invisível dessa exposição. Nos últimos anos, casos de câmeras escondidas em apartamentos alugados por temporada, quartos de hotel e até banheiros ocuparam manchetes em diferentes países. Plataformas como o Airbnb chegaram a endurecer suas regras, proibindo completamente câmeras em áreas internas das acomodações.
Curiosamente, a reação pública raramente condena a existência das câmeras em si. Obviamente, o debate costuma girar em torno do lugar onde elas estão instaladas e de quem controla as imagens.
Diversas pesquisas mostram que sistemas de vigilância aumentam a sensação de segurança e podem reduzir determinados tipos de crime, especialmente em estacionamentos e áreas específicas. Especialistas que defendem nossa privacidade lembram que a expansão do monitoramento exige transparência, limites claros e fiscalização constante. Suponho que o problema nem seja, necessariamente, instalar “mais uma” câmera. O mais difícil vem na sequência. Onde está ou será instalada, quem tem acesso às imagens e por quanto tempo serão guardadas..
Ao pensar nos limites entre segurança e privacidade, aquela reunião de condomínio voltou à minha cabeça. Ninguém parecia incomodado com a possibilidade de instalar mais algumas câmeras. Eu me dei conta de que também valorizo a segurança, mas tenho plena consciência de que a ideia de viver permanentemente observado causa muito desconforto.
Quase três décadas depois de sua estreia, O Show de Truman continua atual porque dialoga com a forma como organizamos as nossas cidades, os nossos edifícios e, pouco a pouco, a nossa intimidade. E sim, o filme termina quando Truman atravessa a porta para a realidade.
Saímos da sala de cinema, destravamos o carro sob a lente de uma câmera, entramos em um elevador, caminhamos por ruas monitoradas e cruzamos pessoas que carregam no bolso um dispositivo capaz de registrar qualquer instante da nossa vida. Em algum ponto desse percurso, seremos registrados dezenas, ou centenas de vezes. O curioso é que essa dificilmente será a lembrança que levaremos do dia.
Truman descobriu que vivia dentro de um cenário. Nós aprendemos a viver dentro dele.
Nota sobre autoria
Este ensaio resulta de pesquisa, leitura e reflexão autorais. A inteligência artificial foi utilizada apenas como ferramenta de apoio à investigação bibliográfica e à localização de artigos, estudos e referências. A interpretação, a curadoria das fontes, a escrita e todas as decisões editoriais permanecem integralmente sob minha responsabilidade.



