Ex Machina e a sedução do simulacro sensível
A ilusão da reciprocidade
Quando Ex Machina estreou, em 2015, a inteligência artificial ainda ocupava um lugar relativamente confortável no imaginário popular. Entre 2010 e 2017 por exemplo, era comum ver a IA aparecer nas notícias como promessa, nos laboratórios como pesquisa e frequentemente nos cinemas como antecipação do futuro (Tron, Her, Transcendence: A Revolução, Vingadores: Era de Ultron, Blade Runner 2049). Hoje, basta abrir um computador ou pegar o smartphone para conversar durante horas com um sistema capaz de responder, escrever e até adaptar a linguagem ao modo como cada pessoa se expressa.
Rever o filme de Alex Garland exclusivamente para a newsletter Vozes do Telesterium, produz uma sensação, no mínimo, curiosa. A tecnologia que parecia extraordinária não ocupa mais o centro da experiência, e com isso, minha atenção acabou sendo atraída para observar o personagem de Caleb.
Ele chega à casa de Nathan imaginando participar de um experimento científico bastante objetivo. Durante alguns dias, deverá conversar com Ava e responder a uma pergunta que acompanha a inteligência artificial desde Alan Turing: existe consciência por trás daquela conversa? Logo nas primeiras cenas, a curiosidade muda de direção.
Enquanto Caleb procura compreender Ava, ele começa a revelar pequenos detalhes sobre si mesmo. As pausas, os constrangimentos, o entusiasmo contido e a maneira como reage ao silêncio dizem tanto quanto as palavras. É curioso como Ava acompanha tudo com uma serenidade difícil de ignorar. O interesse dela é compreender quem está à sua frente, sem precisar convencer o “visitante” de sua inteligência.
Revi essa sequência algumas vezes porque ela desloca discretamente o centro da narrativa. O interesse permanece em Ava, mas as conversas revelam, sobretudo, quem é Caleb. O laboratório continua o mesmo, o experimento também. Quem muda é o olhar do espectador. Escutar alguém com atenção virou um bem cada vez mais escasso.
Todos os dias vivemos cercados por mensagens, reuniões, notificações e conversas interrompidas. Mas tem um detalhe, o hábito de escutar com calma tornou-se raro. Quando isso acontece, quase sempre sentimos que existe alguma forma de proximidade, mesmo entre pessoas que acabaram de se conhecer. Ava, um androide, percebe isso muito mais cedo que nós humanos.
Ela sequer tenta impressionar Caleb exibindo conhecimento técnico ou respostas brilhantes. O vínculo cresce porque a conversa encontra ritmo. Existe curiosidade, espaço para hesitação. É o tipo de atenção que faz Caleb permanecer ali por muito mais tempo do que imaginava.
Ao rever essas cenas, pensei em quantas vezes acontece algo semelhante fora do cinema.
Quando a conversa muda de direção
Conversamos diariamente com sistemas capazes de lembrar assuntos anteriores, adaptar o vocabulário, responder no mesmo tom e manter longas conversas sem demonstrar impaciência. Depois de algum tempo, a tecnologia começa a desaparecer da nossa percepção, e muitas vezes nem lembramos da engenharia que a tornou possível. O que marca mais é a estranha sensação de continuidade, de ligação com a máquina.
A pergunta sobre a consciência de Ava acompanha o filme do início ao fim, mas ela nunca monopoliza a narrativa. Enquanto Nathan insiste em testar os limites da inteligência artificial, Alex Garland parece interessado em outro tipo de experiência: a forma como uma conversa modifica quem participa dela.
Uma das cenas mais bonitas acontece diante do painel de vidro que separa Ava e Caleb. Quase nada acontece enquanto permanecem frente a frente, dividindo pequenos sinais de curiosidade. O laboratório continua cercando os dois com toda a sua engenharia, porém a tecnologia perde protagonismo à medida que a conversa avança. Foi essa sequência que me fez ver tudo por um ângulo diferente, criando até uma certa ansiedade.
… A experiência de proximidade raramente depende apenas do corpo físico. Ela nasce, antes de tudo, da atenção que recebemos.
Enquanto escrevia este ensaio, lembrei que meu relacionamento amoroso, hoje com vinte anos, começou diante de uma tela. Éramos dois desconhecidos, protegidos por apelidos e pela distância, conversando numa época em que relacionamentos virtuais ainda despertavam desconfiança. A conversa avançou, encontrou um ritmo próprio e, em algum momento impossível de identificar com precisão, a tecnologia deixou de ocupar o centro da experiência. O que passou a importar foi a sensação de que havia alguém genuinamente presente do outro lado. Talvez seja essa uma das observações mais desconfortáveis e, ao mesmo tempo, mais precisas de Ex Machina: a experiência de proximidade raramente depende apenas do corpo físico. Ela nasce, antes de tudo, da atenção que recebemos.
Ao terminar o filme, voltei a pensar em algo que venho aprendendo e tentando aperfeiçoar ao escrever ficção especulativa: um diálogo começa a ganhar vida quando os personagens deixam de falar apenas sobre o assunto da cena e passam a revelar algo sobre si mesmos. Em Ex Machina, esse deslocamento acontece de forma quase imperceptível. A pergunta sobre a consciência de Ava continua presente, mas a atenção acaba se voltando para outra questão: o que exatamente Caleb encontra naquela conversa para desejar retornar a ela?
Para o café desta sexta especulativa
Se decidir rever Ex Machina, experimente observar menos Ava e dedicar mais atenção a Caleb. A narrativa muda de perspectiva quando acompanhamos aquilo que ele revela sem perceber.
Um amigo sugeriu que uma boa companhia para esse fim de semana é A Silicolonização do Mundo, de Éric Sadin (edição em espanhol disponível aqui). Ainda não li, mas nesta obra, o filósofo francês examina a forma como sistemas inteligentes passaram a participar silenciosamente das nossas escolhas cotidianas, oferecendo um contraponto interessante às perguntas levantadas por Alex Garland.


